Uma agenda para discussão do que se espera para os municípios no futuro

François E. J. de Bremaeker,Economista e Geógrafo,

Coordenador de Articulação Político-Institucional do IBAM

Ao se efetuar um balanço das reivindicações apresentadas pelos Municípios junto ao Executivo e ao Legislativo federal, verifica-se que os avanços conseguidos ficaram muito aquém do esperado, não tendo nem mesmo conseguido iniciar o processo de recuperação dar perdas financeiras sofridas ao longo destes últimos 10 anos.

A mais expressiva reivindicação dos Municípios, representada pela elevação para 23,5% dos recursos a serem distribuídos através do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), além de não ter sido votada no decorrer do primeiro semestre de 2004, também não foi incluída na pauta do esforço concentrado do Congresso Nacional, fazendo antever que se torna cada vez mais difícil a sua aprovação até o final do ano.

Durante o último ano de mandato dos Prefeitos, intensificam-se, por um lado, as preocupações com o cumprimento dos dispositivos da Lei de Responsabilidade Fiscal, enquanto que, por outro, a mobilização dos Prefeitos se torna mais difícil em razão do momento político representado pela proximidade das eleições municipais.

Este conjunto de fatores torna especialmente delicado o futuro dos Municípios, visto que existe uma extensa agenda de preocupações relacionadas com às áreas da educação, da saúde, da segurança pública e das finanças municipais.

Na área da educação a preocupação diz respeito à tramitação do Projeto que institui o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB), que, se por um lado não restringe os gastos apenas aos professores, ampliando o número de servidores que poderão ter seus custos cobertos pelo Fundo, por outro os recursos deste novo Fundo tenderão a ser reduzidos.

Estudo elaborado pelo IBAM mostra que com o FUNDEF pouco mais de 2.200 Municípios, principalmente aqueles de menor porte demográfico, perdem recursos, pois os descontos à conta do Fundo são maiores do que os créditos dele recebidos. Com o FUNDEB, como o ensino médio é mais caro, a tendência é de que uma parcela maior de recursos será deslocada para os Estados, o que aumentará ainda mais o número de Municípios com perda de recursos financeiros

Na área da saúde continua preocupando a eterna busca por mais recursos, visto que os custos operacionais suportados pelos Municípios são cada vez maiores e os valores repassados através do SUS, do PAB e de outros programas, não têm atendido às necessidades financeiras dos Municípios.

Na área da segurança pública existe uma firme preocupação com os reflexos do entendimento que será dado não apenas pela sociedade, mas pelas demais esferas de Governo, quanto à concessão do “poder de polícia” às guardas municipais, conforme projeto que tramita no Congresso Nacional. Isto poderá significar que os Municípios também terão obrigações na manutenção da segurança pública, sem que lhes sejam repassados recursos adicionais.

Na área financeira propriamente dita, além de ver sua participação no bolo tributário nacional diminuir a cada ano, ainda paira no ar o fantasma da reforma tributária prometida para 2007 através da implementação do Imposto sobre Valor Agregado (IVA), para cuja constituição os Municípios perderiam a competência do Imposto sobre Serviços (ISS), que é o principal tributo municipal.

E se não bastasse a perda do ISS, também está em curso a idéia de que com a instituição do IVA, os Municípios passariam a receber dos Estados uma parcela deste novo imposto, em substituição às atuais transferências do ICMS e do próprio FPM.

Estudo elaborado pelo IBAM demonstra que esta prática seria danosa aos interesses dos Municípios, pois a imensa maioria deles não conseguiria obter através de uma simples transferência do IVA os recursos financeiros necessários para cobrir as perdas do FPM, ICMS e ISS.

É preciso lembrar, por fim, que a sociedade, de um modo geral, reclama da elevada carga tributária praticada no País e que o meio empresarial, em especial, também comunga da mesma opinião. Isto representa dizer que o Município, que representa o elo mais fraco da cadeia, estará só contra todos.