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A importância
dos partidos políticos na consolidação da
democracia foi ressaltada hoje pelo
presidente do TSE, ministro Carlos Ayres
Britto, durante entrevista coletiva à
imprensa. Para o ministro, “os partidos são
uma ponte entre os candidatos e os
eleitores. Não há candidatura Zumbi. Ninguém
é candidato de si mesmo. Os partidos são
instituições fundamentais à democracia, são
veículos da democracia”.
Carlos Ayres Britto, ao comentar a questão
da candidatura de políticos com ficha
criminal, lançou uma pergunta aos
jornalistas: “Essa idéia central de que o
povo merece o melhor no plano da
representatividade política não começa por
um juízo mais rigoroso do registro de
candidatura, de modo que, diante de um
pedido de registro por parte de um partido,
mas referente a candidato cuja vida é
reconhecidamente um namoro com a
deletividade”, a Justiça Eleitoral não pode
fazer nada?”
Sobre sua participação no Partido dos
Trabalhadores (PT) e que avaliação ele faria
do partido hoje, o ministro
esclareceu:”Quando fui indicado para
ministro do Supremo Tribunal Federal eu fiz
o que, modéstia à parte sei fazer na minha
vida: eu viro a página. Se refugar nada, sem
me arrepender de nada. Virei a página. A
minha página partidária está definitivamente
virada. Eu virei magistrado e um magistrado
não pode ter preferência partidária”.
Segue abaixo, trecho da entrevista do
presidente do TSE:
(Jornal Valor): No seu discurso de
posse o senhor citou a questão da fidelidade
partidária, sinalizando uma possível
ampliação dessa fidelidade, o senhor falou
da necessidade de existir uma fidelidade do
partido às suas próprias diretrizes. Eu
queria saber como essa questão pode ser
levada a cabo na prática pelo tribunal, se
existe alguma representação em curso, existe
alguma ação nesse sentido.
Ministro Ayres Britto: Os partidos
são uma ponte necessária entre os candidatos
a cargo eletivo, a cargo de representação
popular, e os eleitores. Não há candidatura
Zumbi. Ninguém é candidato de si mesmo. Sem
a ponte do partido ninguém chega ao eleitor.
Isso significa que a nossa democracia é
partidária, a nossa democracia indireta ou
representativa é partidária. Os partidos são
instituições fundamentais à democracia. São
veículos da democracia.
Os partidos correspondem a parcelas de
opinião pública, no campo
político-ideológico ou filosófico político.
Os partidos arregimentam na sociedade
simpatizantes para os seus programas, para
sua ideologia, para a sua filosofia
política.
Os partidos organizam, portanto, essa
vocação que as pessoas têm para praticar a
política. Eles são fundamentais, são
essenciais, são de toda a relevância. E
como, a cada eleição, eles em suas
convenções escolhem os candidatos, registram
os candidatos na Justiça Eleitoral, avalizam
a candidatura dessas pessoas que pretendem
se eleger, os partidos abrem os seus espaços
no rádio e na televisão para os seus
candidatos registrados, gastam dinheiro,
investem dinheiro do fundo partidário com
campanhas eleitorais, então os partidos não
podem ser abandonados pura e simplesmente
depois que o seu candidato é eleito.
O candidato não pode bater em retirada, dar
costas ao partido sem nenhuma satisfação,
colocando o diploma e o mandato debaixo do
braço. Foi isso que nós dissemos com toda
coerência, porém, não faz sentido exigir
fidelidade do eleito ao seu partido, se o
partido não for fiel a si mesmo, não for
fiel ao seu programa e sobretudo se o
partido não praticar aquilo que é próprio de
todo o processo eleitoral: o regime
democrático. É preciso que haja uma
democracia interna, fuga de oligarquização,
fuga do cezarismo interno ou endógino. Nessa
medida, se um eleito pelo partido chega à
Justiça Eleitoral dizendo que não tem
condições de permanecer naquele partido,
porque o partido desertou de seu programa e
internamente é autocrático, é evidente que a
Justiça estará sensível para este tipo de
postulação de afastamento partidário, de
desligamento.
A Justiça Eleitoral pode colaborar nesse
processo de depuração da vida democrática
brasileira, a partir da vida interna dos
partidos. A Justiça Eleitoral pode
colaborar, acatando o desligamento do
parlamentar, do executivo eleito, sob essa
justificativa de que não pode conviver com o
partido desertor de seus próprios ideais e
oligarca. Então, é nesse sentido que fala
meu discurso. Porque só neste contexto é que
se pode falar do partido como “sepulcro
caiado”, é uma expressão antiga que
significa que o túmulo, o sepulcro, o
mausoléu é bonito por fora, mas não existe
mausoléu bonito por dentro, vamos convir. O
que tem ali é uma putrefação só.
Agora, não descontextualizem essa minha
colocação, senão eu estarei ofendendo os
partidos políticos do modo mais grosseiro e
injusto possível. Os partidos são peças
fundamentais à democracia, a ponto de se
poder dizer que nós vivemos numa
partidocracia, mas uma partidocracia no
Brasil no melhor sentido. Quando eu falei de
sepulcro caiado foi nesse sentido. Se o
partido exige fidelidade de seu candidato
eleito, o seu representante, e ele mesmo não
é fiel ao seu programa, não é fiel à sua
própria democracia, esse partido é sepulcro
caiado.
Entenda bem, neste contexto, porque fora do
contexto, volto a dizer, até parece que eu
estou explodindo a estrutura partidária e
manifestando a minha absoluta descrença nos
partidos, como peças essenciais à
democracia. Muito ao contrário, ontem em meu
discurso eu fiz questão de dizer que se de
um lado nós temos políticos que fazem de sua
caneta um pé de cabra, de outro lado, nós
temos políticos que fazem da política aquilo
que ela efetivamente é: a política é a mais
importante das atividades humanas, porque a
política serve para viabilizar a prestação
de serviço estatal a toda coletividade, a
polis por inteiro. Política vem de polis,
que é mais de sociedade civil, é esse espaço
de originárias relações entre todos os
governantes e todos os governados.
Nós sabemos que não há gênero maior no plano
das relações do que esta entre governantes e
governados constituindo as primárias das
relações, após essa polis dos gregos e
cívita dos romanos e a política é isso, essa
atividade voltada o tempo inteiro para
servir a coletividade como um todo. Se no
plano espiritual não há nada mais importante
do que a religião, porque enquanto na
religião a ligação entre criador e criatura
se serve a Deus, a mais sublime das
instância, no plano temporal, secular não há
atividade mais importante do que a política,
porque pela política se serve ao povo
inteiro e o povo é, sem nenhuma dúvida, a
mais relevante de todas as instâncias.
(O Estado de S. Paulo) : Ontem o sr.
falou em seu discurso sobre um assunto
recorrente, que é a candidatura de políticos
com a ficha criminal suja. Eu devolvo a
pergunta, já que o senhor fez em forma de
questionamento. É possível a Justiça
Eleitoral fazer algo a respeito disso ou
depende de alguma mudança legislativa?
Ministro Ayres Britto: Eu fiz
questionamentos, naquela linha do pensador
contemporâneo Umberto Eco: ele diz que o
papel de todo intelectual, de todo
jornalista, de todo aquele que tem uma
inserção comunitária mais forte é agitar
idéias, é questionar aquilo que parece
definitivamente assentado. É essa
inquietação mental que faz a sociedade
avançar, evoluir, fugir da estagnação, do
marasmo, da mesmice. O questionamento é uma
fuga da mesmice. Eu questionei para suscitar
uma reflexão eminentemente jurídica, porque
este é um tema recorrente, de marcante
atualidade. Já houve a decisão , já houve,
mas a toda hora a imprensa noticia que
alguns Tribunais Regionais já estão voltando
à carga com essa preocupação. Essa idéia
central de que o povo merece o melhor no
plano da representatividade política não
começa por um juízo mais rigoroso do
registro de candidatura, de modo que, diante
de um pedido de registro por parte de um
partido, mas referente a um candidato cuja
vida é reconhecida um franco, um namoro
permanente com a deletividade, a Justiça
Eleitoral não pode fazer nada? Aí vem outro
questionamento.
Será que a regra constitucional, que é um
verdadeiro direito à presunção de
não-culpabilidade enquanto não transitar em
julgado sentença penal condenatória, será
que este dispositivo constitucional pode ser
estendido à Justiça Eleitoral ou ele diz
respeito apenas à justiça penal? É uma
matéria exclusiva de direito penal ou se
estende
ao direito eleitoral? Com este tipo de
questionamento, os juristas, os advogados,
os operadores do direito vão se desbruçar
sobre a Constituição e a legislação
infraconstitucional com mais cuidado, com
mais demora para equacionar a pergunta.
Não estou antecipando voto, nem preferência,
mas é um tema recorrente, as pessoas se
perguntam isso. Nós falamos tanto de
qualificação da vida ecológica, ética,
econômica do país e falamos muito pouco,
inclusive na imprensa, de qualificação da
vida política. Quantas vezes vocês ouviram
ou leram essa expressão? Qualificação da
vida política brasileira? A qualificação da
vida política brasileira não é uma espécie
de condição para as outra qualificações? Sem
a qualificação da vida política você não
consegue uma qualificação da vida social, da
vida ética, então, o processo democrático é
esse questionamento incessante.
Eu apenas fiz uma provocação para que todos
nós estudemos ainda mais. É possível extrair
do ordenamento brasileiro o juízo que a
Justiça Eleitoral está habilitada sim, se
não por um dispositivo isolado, mas por um
sistema de comandos. É possível extrair
desse sistema de comandos uma regra
habilitadora da Justiça Eleitoral para se
indicar, examinar o mérito do registro na
perspectiva da vida pregressa do candidato?
Eu não tenho resposta.
(O Globo): Eu queria perguntar o
seguinte: levando-se em consideração os
partidos, e o grau de putrefação deles por
dentro, que o senhor mencionou, eu queria
fazer uma pergunta mais específica. Antes de
ser magistrado, o senhor foi um dos
fundadores do Partido dos Trabalhadores. Eu
queria saber se o senhor considera que o
partido manteve fidelidade aos seus
propósitos iniciais ou se hoje em dia é um
outro partido diferente com relação ao que o
senhor fundou ?
Ministro Carlos Ayres Britto: Eu volto a
dizer a metáfora do sepulcro caiado, que é
muito forte, também como é muito forte a
metáfora da transformação da caneta em pé de
cabra, mas às vezes é preciso usar dessas
metáforas mais fortes didaticamente, com o
melhor dos propósitos na perspectiva do
saneamento dos nossos conceitos. Então
quando eu falava da putrefação foi naquele
conceito: como é que um partido exige
fidelidade dos seus eleitos a eles
(partidos) e não são fiéis a si mesmos no
plano da democracia interna, da fidelidade
programática ? isso parece farisaísmo ou
sepulcro caiado. Foi nesse contexto que eu
concedi a entrevista.
Eu não fui fundador do Partido dos
Trabalhadores, eu sempre fui simpatizante,
mas entrei alguns anos depois. E entrei no
Partido dos Trabalhadores a partir de duas
bandeiras por ele hasteada, o partido
hasteada e acredito que ainda hoje hasteie,
duas bandeiras bem nítidas, a primeira da
democracia, a segunda da ética na política.
E, vamos convir, ali onde a ética na
política não é tudo, a política não é nada.
Vamos radicalizar, vamos fazer como Tobias
Barreto que dizia assim: onde o povo não é
tudo, o povo não é nada. Essa radicalidade
democrática de Tobias Barreto é de uma
marcante atualidade. Não há meio termo. Onde
a ética na política não é tudo, a política
não é nada. Não tenho receio de incorrer
nessa radicalidade, no sentido de ir às
raízes. Há muito mérito nisso, muita
autenticidade nisso. Então o Partido dos
Trabalhadores hasteava essas duas bandeiras
e contribuiu muito para a restauração do
processo democrático brasileiro e
implantação da ética na política. Militei
quase 18 anos com todo empenho, com todo o
gosto. Eu era no partido uma espécie de
intelectual orgânico. Agitava algumas
idéias, fazia alguns questionamentos,
participava de debates.
Eu era um professor da Universidade Federal
de Sergipe, escritor, conferencista e com
essa embocadura para os temas políticos.
Ensinei muito direito do Estado, teoria
geral do Estado, ensinei muito direito
constitucional, que tem tudo com política.
Quando fui indicado para ministro do
Supremo, eu fiz o que, modéstia à parte, eu
sei fazer na minha vida. Eu viro a página
sem refugar nada, sem me arrepender de nada.
Virei a página. A minha página partidária
está definitivamente virada. Eu virei um
magistrado e um magistrado não pode ter
preferência partidária. Ele tem que ser
imparcial. Então com o Partido dos
Trabalhadores a minha relação é essa: antes
e depois. Antes eu fui um fervoroso
participante do partido, da sua militância
democrática e ética. Hoje eu sou um
fervoroso militante da judicatura, um
entusiasmado magistrado. Cônscio de que a
magistratura e que o Poder Judiciário
organiza a práxis nacional. O poder
judiciário como dá a última palavra
jurídica. O judiciário plasma o perfil de
todo a coletividade como se fosse um
maestro. O maestro regente faz um movimento
com a mão e a orquestra toda segue. Pensemos
no Supremo. O Supremo toma uma decisão, uma
nova cultura se implanta e um velho
paradigma é derrubado. Isso nos dá uma
responsabilidade muito grande. Eu tenho dito
também metaforicamente, que o Supremo é uma
casa de fazer destino nacional sem usurpar a
função legislativa. Ele não pode usurpar a
função legislativa nem tem usurpado a função
legislativa.
(Correio Braziliense): Eu queria uma
opinião do senhor bem específica: ontem o
senhor tocou no ponto sobre as obras no
período eleitoral. E isso tinha sido tema de
diversas trocas de farpas entre o presidente
Lula e o ministro Marco Aurélio. Eu queria
saber se o senhor acha que é possível tocar
obras, inaugurar obras, executar obras em
período eleitoral e se esse tipo de coisa
que está acontecendo, e se essas coisas que
estão acontecendo, esses eventos do PAC, são
comícios antecipados.
Ministro Carlos Ayres Britto: Izabelle,
quando eu estava discursando ontem tirei a
vista do papel, olhei para a platéia para
oralizar, não para ler. Eu não estava ali
antecipando voto, nem mesmo preferência
pessoal. O que eu estava era fazendo uma
provocação. Antecipando, lógico, um tema que
aflorará. Porque nós não somos ingênuos.
Isso virá sob a forma de consulta, de
representação contra determinado governante,
estadual, municipal, federal. Mas, na medida
que eu faço provocação, eu já antecipo
estudos de todos nós que somos
especificamente da comunidade jurídica.
Esse tema é um fio de navalha porque a linha
que separa o legal do ilegal é muito tênue.
Porque de um lado é natural que todos nós
nos perguntemos. Como o Brasil em anos pares
passa por eleição geral, em anos pares os
governantes deixam de governar, eles
governam ano sim, ano não. É um
questionamento. Segundo: natural que isso
aflore ao nosso pensamento. Não, o
governante pode governar, contando que
beneficie toda uma coletividade. E todos,
digamos, no plano federal, todos os estados
e municípios, sem discriminação.
Não esse ou aquele município alinhado,
partidariamente ou governamentalmente. Não
esse ou aquele estado que também faça parte,
cujo governador faça parte da situação. E
como fica esse governo para toda a
coletividade indistintamente, diante da
regra também constitucional, também legal,
da paridade de armas, da paridade de meios
nessa temporada de caça ao voto, viciada.
Como fica esse equilíbrio de forças entre os
pretendentes, os disputantes da preferência
popular ? É possível harmonizar, não é
possível, um tem que sacrificar o outro ? É
evidente que eu não vou responder. Até
porque eu não sei. Agora eu já estou
meditando, já estou estudando, fazendo
anotações. Já estou aqui procurando na
Constituição. Meu Deus, será que eu não
tenho aqui um artigo que não seja pelo menos
seja o início de equacionamento jurídico.
Por exemplo: artigo 19 é vedado aos estados,
ao Distrito Federal e aos municípios criar
distinções entre brasileiros por
preferências entre si. Será que esse não é o
ponto de partida para um equacionamento
jurídico na perspectiva quem sabe da
conciliação entre esses dois valores.
Eu sou um agitador de idéias, não posso
deixar de ser. Eu quero antecipar estudos
para que quando as questões chegarem, nós já
tenhamos todos os ministros, advogados,
juristas, jornalistas, tenhamos todos pelo
menos um início de reflexão sobre o tema.
Sou um homem do meu tempo. Vocês estão
perguntando exatamente o que está no meu
discurso. Todas as perguntas estão no meu
discurso, por que ? (Risos) Aquele discurso
foi inspirado em vocês, claro que vocês
perceberam isso. Nas perguntas que vocês
fazem todos os dias. |