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Por Léo Lince
A prestação de
contas da última campanha presidencial está
nos jornais da semana. Um espanto. A turma
do Geraldo arrecadou cerca de 62 milhões de
reais, gastou 82 milhões e vai pendurar 20
milhões. O aglomerado petista arrecadou
cerca de 94 milhões, gastou 104 e vai
pendurar 10 milhões. E com um detalhe, sem
dúvida, estranho: um quarto do arrecadado só
entrou no caixa depois de terminada a
campanha.
Uma primeira constatação se impõe: apesar
das mudanças legais visando o contrário,
nunca (neste país, como diria Lula) o poder
econômico teve um peso tão ostensivamente
alto. Quanto menor a política, maiores são
os custos da sua reprodução. É o que se
deduz dos dados, que se limitam ao que foi
declarado de acordo com a norma legal.
O caixa dois fica para depois. Os famosos
“recursos não-contabilizados”, a experiência
pregressa nos ensina, só se darão a conhecer
se alguém “de dentro”, descontente com a
partilha, abrir o bico no mercado futuro das
CPIs. Por enquanto, o preocupante é o
próprio perfil do caixa um, na medida em que
ele revela, melhor do que qualquer
sociologia, um avassalamento da política
pelos donos do poder econômico.
Os bancos, repetindo a prática das
anteriores, foram os principais
financiadores da campanha presidencial.
Abriram as burras para o candidato reeleito
e também para o seu principal oponente. O
segundo maior ramo de atividade entre os
doadores é o das empreiteiras, as grandes
campeãs das licitações públicas. Em seguida,
aparecem os setores da siderurgia e da
mineração, onde pontifica o baronato novo
resultante das privatizações. É a turma do
meu pirão primeiro.
Os grandes financiadores da campanha
presidencial são, não por acaso, os grandes
beneficiários do modelo dominante. Eles são
a nata de uma casta que nada em dinheiro e
não brinca em serviço. A “burguesia branca e
malvada” da teoria Lembo, cautelosa quanto a
projetos que possam colocar em risco os seus
ganhos sistêmicos, só mete a mão no bolso
para financiar a campanha eleitoral dos
“amigos”. Inclusive, essa notícia é mais
antiga, para formar bancadas parlamentares
fiéis aos interesses das grandes corporações
empresariais.
A campanha Lula foi a mais cara da história
do Brasil e o PT não vendeu estrelinhas nas
ruas. Esse tempo, como afirmou o
ex-presidente da Petrobras, é uma página
virada. Até no quesito “contribuição de
pessoas físicas”, parcela diminuta do bolo
monumental, as feições foram outras. Por
exemplo, Luma de Oliveira, que foi a
madrinha da bateria dos contribuintes
individuais em 2002, desta vez não
compareceu. O seu ex-marido, no entanto,
continua lá, na luxuosa comissão de frente
dos contribuintes milionários, ao lado de
dois fabricantes de sandálias que,
certamente, não são mais as da humildade.
O formato atual de financiamento de
campanha, além de fonte inesgotável da
corrupção, é um componente essencial para a
reprodução da ordem injusta, com toda sua
carga de calamidades. É por intermédio de
suas malhas que se garante o mecanismo de
cooptação e de desmoralização de lideranças
políticas, bem como a continuidade do
processo em curso, de conseqüências
aterrorizantes, e que ganhou fôlego na
última eleição: a privatização do poder
público.
Fonte: Correio da Cidadania. |